Auto-hemoterapia Informações e debates

            Quem somos

                 auto-hemoterapia o que é? |  informações & debate |  depoimentos |  publicações |  vídeos |  política de privacidade |  pesquisa virtual

ver participações do dia Visitantes: 3.911.748 (início em 30/10/2010)

"Conversa com o
Dr. Luiz Moura:
O que é
auto-hemoterapia?
"


Vídeo na íntegra.

Conversa com o Dr. Luiz Moura

Agora também
subdividido em
60 temas








Assine a petição
para a Liberação da
Auto-hemoterapia








"Conversa com o
Dr. Luiz Moura:
O que é
auto-hemoterapia?
"


Vídeo na íntegra.

Conversa com o Dr. Luiz Moura

Agora também
subdividido em
60 temas

Busca Saúde
Loading

 Mais um registro histórico da AH em

Auto-Hemoterapia - Informações e Debate - Ver Opinião - Ver Opinião - Participação
3558
Terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 - 18:56:04
200.20.24.78

Mais um registro histórico da AH em  

 

http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/17608/3/180_2_FMP_I_01_P.pdf 

 

 

JOSE 

PINTO 

CABRAL 

ÁUTO-SOROTHERAPIA 

DISSERTAÇÃO INAUGURAL 

APRESENTADA Á 

FACULDADE DE MEDICINA DO PORTO 

JULHO bE 1920 

IMPRENSA NACIONAL — de Jaime Vasconoelos — 204, Rua José Falcão, 206 — PORTO 

f* 

o|3- 

X? 

AUTO-SOROTHERAPIA 

jS-OfJL -Frt p 

JOSE 

CORREIA 

ABREU PINTO CABRAL 

AUTO-SOROTHERAPIA 

DISSERTAÇÃO INAUGURAL APRESENTADA A 

FACULDADE DE MEDICINA DO PORTO 

JULHO ÙE 1920 

IMPRENSA NACIONAL 

— de Jaime Vasconcelos — 204, Rua José Falcão, 206 

PORTO 

J($t/Z Thf? 

FACULDADE DE MEDICINA DO PORTO 

DIRECTOR 

br. Maximiano Augusto de Oliveira Lemos 

PROFESSOR SECRETÁRIO 

Dr. 

Álvaro Teixeira Bastos 

CORPO DOCENTE 

Professores Ordinários 

Anatomia descritiva Dr. Joaquim Alberto Pires de Uma 

Histologia e Embriologia ... Dr. Abel de Lima Salazar 

Fisiologia geral e especial ... Dr. António de Almeida Garrett 

Farmacologia Dr. José de Oliveira Lima 

Patologia geral Dr. Alberto Pereira Pinto de Aguiar 

Anatomia patológica Dr. Augusto Henriques de Almeida Brandão 

Bacteriologia e Parasitologia . . Dr. Carlos Faria Moreira Ramalhão 

Higiene Dr. João Looes da Silva Martins Júnior 

Medicina legal Dr. Manuel Lourenço Gomes 

Medicina operatória e pequena 

cirurgia Dr. António Joaquim de Sousa Júnior 

Patologia cirúrgica Dr. Carlos Alberto de Lima 

Clínica cirúrgica Dr. Álvaro Teixeira Bastos 

Patologia médica Dr. Alfredo da Rocha Pereira 

Clínica médica Dr. Tiago Augusto de Almeida 

Terapêutica geral Dr. José Alíredo Mendes de Magalhães 

Clínica obstétrica Vaga (1) 

História da medicina e Deontologia 

Dr. Maximiano Augusto de Oliveira Lemos 

Dermatologia e Sifiligraíia ... Dr. Luis de Freitas Viegas 

Psiquiatria Dr. António de Sousa Magalhães Lemos 

Pediatria Vaga (2) 

Professores Jubilados 

C) Cadeira regida pelo Prof, livre—Dr. Manuel António de Morais Frias (2) Cadeira regida pelo Prof, ordinário—Dr. António de Almeida Garrett! 

À 

Faculdad 

e não responde pelas doutrinas expendidas na dissertação. (Art. 15." § 2.0 do Regulamento privativo da Faculdade de Medicina do Porto, de 3 de Janeiro de 1920). 

Il 

INTRObUCÇfiO 

O assumpto que me propuz estudar, é fora de duvida, sujeito a uma critica a que eu não me poderia 

furtar se, em vez de lhe dar uma feição pratica 

sob o ponto de vista da observação clinica, entrasse em considerações theoricas adaptáveis ao momento actual da sciencia, pois neste caso teria de me esbarrar com enormes difficuldades, advindo umas da pouca pratica, advindo outras da deficiência 

de dados laboratoriaes. 

E, para completar um estudo d'esta natureza, tão complicado como elle se nos apresenta, necessário 

se tornava a ajuda de quem, com competência 

pudesse investigar no laboratório um certo numero 

de elementos que a clinica prevê, mas só o laboratório pode confirmar. 

Desde ha muito tempo que a auto-sorotherapia 

10 

se faz; porem tem sido abandonada e esquecida varias vezes, motivada sem duvida pela falta d'um estudo laboratorial completo em que ella se appoie. Não admira que na pratica os enthusiasmos tenham sido grandes em favor de tal therapeutica, como grandes também tem sido as frequentíssimas decepções. 

Mas isto, longe de ser um motivo de desalento, é pelo contrario um incentivo para o prosegui-mento deste methodo therapeutico, pela forma evidente 

como elle demonstra, no momento actual, a nossa impotência em face da complexidade dos processos naturaes. 

São bem sugestivas as curas expontâneas a que frequentes vezes assistimos e outras interessantíssimas 

que a historia medica nos lega, para d'ahi tirarmos conclusões e previsões dum futuro therapeutico coroado dos melhores êxitos. 

Pela maneira impressionante como os factos se passam, não devem ser descurados estes processos naturaes de cura, porque só d'elles alguma coisa podemos 

esperar em determinadas circumstancias pa-thologicas. 

"Nunca contrariar a natureza, auxilial-a sempre é o papel do medico». 

E oxalá não venha longe o dia em que elle na 

11 

posse de conhecimentos physiopatologicos proceda com segurança na applicação dos processos que o conduzam a levar ao organismo elementos de que elle carece e que é impotente para os elaborar nas variadas circumstancias pathologicas. 

"Ninguém melhor do que a natureza triumpha dos seus processos». 

É levado por este critério que eu escolhi este assumpto para minha these. 

Estudado o melhor possível na medida das minhas 

forças, luctando com enormes difficuldades para a realização d'um fim satisfactorio, eu não pretendo 

neste meu trabalho, que representa um grande esforço da minha parte para, por obrigação, conquistar 

um diploma, fazer mais do que uma prova experimental 

d'um methodo ainda tão pouco estudado. 

Os casos de cura expontânea, já não quero falar 

nos obtidos pela auto-sorotherapia, bastam para deixar no espirito do observador a impressão de que alguma coisa ha no organismo no que elle pre- 

12 

parou, que o torna dominante sob a acção maléfica do agente. 

Falta precisamente para definir-lhe a acção, um certo numero de conhecimentos que uns já estão hoje esclarecidos, mas que outros permanecem ainda na obscuridade. 

Se hoje, por trabalhos recentes, se sabe já alguma 

coisa sobre o transformismo microbiano, embora não estejam ainda bem explicadas e bem assentes as condições que o originam, não nos deve surprehender que o emprego da sorotherapia deve a cada momento falhar, e que demais não tendo iguais as necessidades para as células do mesmo grupo, mas em indivíduos diversos, também 

não devem ser eguaes os modos de reacção para o mesmo agente microbiano. 

D'ahi, 

uma única conclusão, que só do organismo 

podemos esperar o que havemos de utilizar. 

E ainda mesmo assim a nossa investigação devia 

ir mais do que vae ao encontro da indicação fornecida pelo organismo. 

Historia da auto-sorotherapia 

e suas bases physiologicas 

É ao Dr. Gilbert, de Genebra, que pela commu-nicação feita ao Congresso de Roma em 1894, cabem 

as honras da auto-sorotherapia, pelos resultados 

obtidos na cura das pleurisias exsudativas por meio de injecção sub-cutanea de uma pequena quantidade 

deste mesmo liquido pleuritico. 

Quasi 

simultaneamente o Dr. Marcou, de Petro-grado, como o referem varias revistas, faz igualmente a applicação do liquido pleuritico em injecção sub-cutanea de 2 c.c. no tratamento das pleurisias com derrame, qualquer que seja a sua causa, com a condição 

deste não ser purulento ou sôro-purulento, obtendo os melhores resultados. Mais tarde em 1899, seguindo esta mesma technica, Breton, tentando 

este tratamento na pleurisia sôro-fibrinosa, refere egualmente os bons resultados colhidos. 

\i 

N'uma 

conimunicação á Sociedade Medica dos Hospitaes de Paris, em 7 de Junho de 1909, são apresentados trez casos de pleurisia sôro-fibrinosa, tratadas e curadas com a injecção sub-cutanea do próprio liquido pleuritico, respectivamente por Hen-riquez, Durand e Pierre Weil. 

Mas não é só á pleurisia sôro-fibrinosa que este tratamento foi aplicado, pois que o Dr. Wagon em 22 de Julho de 1916 n'uma communicação á Academia 

de Medicina de Paris, classificou de ideal e especifica a auto-sorotherapia no tratamento da orchi-epididimite blenorrhagica. 

Observações clinicas ha também, que pela forma como foram relatadas nos despertam o mais alto interesse. São as que vemos citadas no livro do Dr. Bettencourt Rodrigues, de Lisboa, intitulado " Problema therapeutico da Tuberculose», o qual me serviu para colher alguns elementos históricos. 

A observação citada por Mackay, d'uma mulher portadora d'um carcinoma do seio, que tendo sido operada, uns dias após a operação o temor reincidiu 

no mesmo local, reaparecendo tumores me-tastaticos, o que não permittiu reoperal-a. Mezes depois, a doente, no meio do agravamento dos seus males, faz uma pleurisia hemorrhagica bilateral de natureza cancerosa. Succède que o liquido começou 

15 

a reabsorver-se, e 

á medida que esta reabsorpção se ia fazendo proporcionalmente, com espanto se assistiu a uma rápida melhora do estado geral e egualmente a uma rápida fusão de todos os tumores 

metastaticos, curando a doente. 

Uma outra observação é devida a Hodenpyl de Nova-York, e é a Semaine Médical de 28 de Junho de 1911 que a relata sob o titulo de "Tratamento do Cancro pela sorosidade ascitica proveniente de indivíduos cancerosos,; e que eu passo a transcrever integralmente. 

"Ha dezesseis mezes, o Dr. E. Hodenpyl (de Nova-York) tornou conhecida a historia d'uma mulher de 37 annos de edade, attingida d'um cancro 

no seio e que apezar d'uma operação radical, apresentou recidivas múltiplas ao nivel do pescoço e da cicatriz operatória. 

Estas localisações foram cuidadosamente extirpadas, 

mas no emtanto viu-se aparecer novas metastases 

cancerosas no pescoço e no seio, pelas quaes se julgou impossível intervir, pela razão das complicações locaes e do estado de cachexia avançada 

da doente. Finalmente formaram-se grossos tumores no figado, enchendo quasi completamente a cavidade abdominal e seguidos cedo da apparição d'uma ascite chyliforme excessivamente abundante. 

10 

O prognostico era deplorável e a morte parecia eminente. 

Comtudo os neoplasmas do pescoço e do seio diminuíram gradualmente e acabaram por desaparecer. 

Também os tumores abdominaes retrocederam 

progressivamente ao mesmo tempo que o fígado 

se tornara mais liso e mais pequeno. Quatro annos aproximadamente depois da primeira operação, 

o fígado parecia pouco mais ou menos normal, 

as-cicatrizes, a emaciação e a ascite postas de parte, não restava nenhum traço da affecção primitiva. 

Em presença d'esté facto surprehendente, o Dr. Hodenpyl lembrou se no curso do desenvolvimento 

dos neoplasmas do abdomen não se teriam 

produzido algumas modificações physicas ou physiologicas nas secreções orgânicas ou internas, tendo por effeito a accumulação, ou pelo menos, a formação de substancias oppondo-se ao desenvolvimento 

das células cancerosas. Esta hypothèse parecia justificada pelas experiências que Hodenpyl 

instituiu sobre ratos, aos quaes se tinha previamente 

inoculado, com successo, o cancro, e nos quaes as injecções de sorosidade ascitica, provindo da paciente de que acabamos de relatar a historia, trouxeram uma necrose accentuada dos tumores com diminuição notável do seu volume, quasi 

17 

mesmo a desaparição completa. Análogos ensaios foram praticados no homem e deram resultados nada menos satisfactorios. Injecções de pequenas quantidades de liquido ascitico, praticadas directamente 

em pleno neoplasma ou na visinhança d'esté, assim como as injecções de quantidades mais consideráveis 

nas veias, determinaram uma vermelhidão 

temporária, com sensibilidade e tumefacção em Volta do tumor. Estes phenomenos não tardaram 

a desaparecer e então via-se produzir o amolecimento 

e necrose do tecido neoplasia», que se reabsorvia ou eliminava, dando logar ao tecido conjunctive 

Em todos os casos os tumores diminuíam de volume e por vezes desapareciam mesmo completamente. 

Por seu turno o Dr. E. Risley, de Boston, acaba de dar conhecimento do resultado dos estudos 

feitos na Massachussette General Hôpital, pela commissão do cancro da Harvard University, relativamente 

ao tratamento dos tumores malignos ino-peraveis por diversos líquidos do organismo, nor-maes ou anormaes, e notadamente pela sorosidade ascitica d'origem cancerosa. 

Este inquérito que conta até ao presente sessenta e cinco casos, mostrou que as injecções de liquido ascitico proveniente de indivíduos cancerosos que 

18 

mostram uma certa resistência á afecção, são susceptíveis 

de trazer, n'uni bom numero de casos, uma melhora symptomatica considerável, traduzindo-se pela attenuação dos phenomenos dolorosos, assim como pelo levantamento da nutrição e do estado geral. N'alguns doentes, pode-se mesmo esperar vêr produzir-se uma paragem no desenvolvimento do neoplasma, sem que, no emtanto, a evolução do processo mórbido se encontre porisso influenciada d'uma maneira persistente, a duração da paragem em questão variando de um a cinco mezes. O cancro 

da bocca e dos maxilares parece fazer excepção á regra, as injecções de sorosidade ascitica ameaçando 

trazer, em tal occorrencia, antes uma acela-ração da marcha da afecção. 

Ajuntemos que, n'uma mulher attingida d'um cancro do ovário, Risley viu sobrevir uma melhora 

notável do estado geral com as injecções de liquido ascitico proveniente da propria doente. Definitivamente, 

as injecções de que se trata parecem merecer logar na terapêutica dos cancros inopera-veis; tudo como os raios de Rõntgen, em algumas pacientes, onde a curetagem com alguns enxertos 

consecutivos em casos de ulceras epithelio-matosas torpidas, o processo em questão é susceptive! 

de prestar bons serviços nos doentes cujo 

19 

estado parecia, á primeira vista, perfeitamente desesperado 

». 

N'um 

caso clinicamente curado de que tenho conhecimento, de meningite tuberculosa, deve-seo bom resultado á auto-sorotherapia do liquido cefa-loraquideano. 

E como da leitura d'estes factos, natural se torna a explicação da sua razão physiologica, nós a tentaremos, fazendo historia dos estudos empre-hendidos n'esse sentido e d'outros, que sem o ser, servem no emtanto para esclarecel-a. 

Para isso invocarei experiências, todas ellas feitas 

no sentido de explicar a acção neutralizante dos exsudados e do liquido intersticial dos edemas artificiaes sobre os micróbios, as toxinas microbianas 

e outras substancias toxicas. As reacções das serosas variam segundo a natureza do virus e"o modo de infecção. Assim é que as pleurisias, as péritonites e as artrites tuberculosas primitivas são mais benignas do que as secundarias. 

Estas reacções são de duas ordens : 

Reacções cytologicas e reacções humoraes 

a) As reacções cytologicas das serosas variam segundo a causa do derrame, tendo Widal e Ra- 

20 

vaut 

utilizado esta propriedade ao diagnostico (cyto-diagnostico). 

A formula cytologica do derrame em certas doenças é mais ou menos typica, é mais ou menos definida. Para outras é uma formula mixta. 

Sobre a natureza e origem destas formulas leu-cocytarias, diversamente explicadas pelos physiologistes, 

o que parece comprovado é que é a intensidade 

e o modo de infecção que fazem variar a formula 

cytologica do que propriamente a natureza d'esta infecção. 

b) As reacções humoraes, dependendo em parte das leucocytarias, gosam um papel importante na defeza das serosas. Nos exsudados encontra-se sempre grande quantidade de albumina e de fibrina e outras substancias especificas bactericidas ou aglutinantes. Constatou-se que os exsudados tem uma toxidade variável, e que esta toxidade, sobretudo 

na tuberculose, é proporcionalmente directa á gravidade da doença. 

Com determinados exsudados, entre elles os de natureza tuberculosa, podem provocar-se pheno-menos de anaphylaxia. 

O modo de defeza dos líquidos exsudativos deve ser procurado no seu mechanismo physio-pa-thologico, ainda hoje mal explicado e a que mais 

21 

adeante me 

referirei. Dupré considera-o como um phenomeno secundário, ligado á acção defensiva da serosa. E assim deve ser comprehendido da designação 

de ascite tuberculosa chronica benigna da infância, com que Marfan rotulou esta localisação bacilar. 

Também o Dr. Evaristo Barreto, de Lisboa, baseando-se em factos clínicos da sua observação, diz que na ascite tuberculosa, á formação do liquido se oppõe ao desenvolvimento das granulações, por isso mesmo que esta forma exsudativa é mais benigna do que a sêcca. 

E sobre este conceito e ainda levado pelo facto de que a laparotomia era um dos meios mais eficazes da sua cura, pelas propriedades que o exsudado adquiria com o arejamento, o Dr. Barreto assentou as bases do novo tratamento da tuberculose por meio de injecções de sorosidade proveniente de indivíduos portadores de ascite tuberculose, que havia forçosamente de cair no desanimo. Ora, o que se pode afirmar do valor curativo d'estes exsu-dados, é que elle é dependente dos anticorpos e d'outras substancias que contem. 

Um derrame rico em fibrina cura melhor do que o que o não é. As propriedades bacteriolyticas e aglutinantes, postas em evidencia respectivamente 

22 

por Pffeifer e Widal, observam-se em todos os exsudâtes. 

P. 

Courmoní virificou que o liquido pleuritico tuberculoso é até certo ponto bactericida para o bacilo de Koch, e a intensidade do poder aglutinante 

dos derrames está na razão inversa da gravidade 

da doença. 

Vejamos agora como se comportam os líquidos 

intersticiaes dos edemas artificiaes em face das toxinas microbianas e outras substancias toxicas. Se se injectar na pata posterior de um coelho, previamente 

ligada por uma faxa constritiva, uma porção 

de toxinas microbianas (experiência de Char-rin e Vitry), ou uma dose mortal de estrichinina, ou chlorydrato de cocaína (experiência de René de Oaulejac), verifica-se que estas substancias em contacto 

prolongado com o liquido intersticial produzido 

pela estase venosa, perdem a sua acção toxica. 

Physiopathologia 

Segundo a theoria de Metchenickoff, são os leucocytos os principaes elementos encarregados da defeza do organismo, sempre que uma causa irritante de qualquer natureza actue sobre elle, determinando 

uma diapedése abundante no logar da irritação; e hoje, que este facto não nos merece a mais pequena duvida, offerece-nos uma especial attenção e varias hypotheses têm sido formuladas para explicar a transformação da diapedése normal em diapedése pathologica, tornada conhecida por Conheim, e as condições que a determinam. 

Seguiram-se muitas experiências para explicar o seu mechanisno. 

Para Conheim, é a alteração da parede dos vasos produzida pela causa irritante, que determina a sahida dos leucocytos, emquanto para outros phy- 

siologistas é a 

excitação dos vaso-dilatadores por acção reflexa. Depois da celebre experiência de Pfeiffer, demonstrando a existência da chymiotaxia em certas plantas moveis, Massard e Bordet mostraram 

por sua vez que os Ieucocytos eram também dotados de propriedades chymiotaxicas. 

Existe nos venenos d'origem microbiana, segundo 

as conclusões de Bouchard, uma substancia que impede a diapedése e diminue assim a phagocytose, 

a ponto de ser vencida a immunidade natural ou adquirida. Foi Charrin quem demonstrou que a substancia a que Bouchard deu o nome de anecta-sina, actuava sobre o centro vaso-dilatador paraly-sando-o, impedindo desta forma a diapedése. Ao lado da anectasina existe egualinente nos productos de origem também microbiana, uma outra substancia 

a que elle deu o nome de ectasina, que actuando egualmente sobre o centro vaso-dilatador, exci-tando-o, produz uma forte congestão no ponto d'onde parte a irritação, com um afluxo grande de Ieucocytos e uma abundante exsudação serosa. 

É o que se observa nos pontos lesados pela tuberculose, quando no organismo se injecta a limpha de Koch, porque esta ectasina existe em grande quantidade na tuberculina. 

Froiu e Ramond estudando os exsudados tuber- 

•25 

culosos chegaram á conclusão de que elles contem uma certa quantidade de tuberculina, que pôde ser utilisada em terapêutica. 

Tudo portanto parece residir no velho problema 

da immunidade. E não é sem razão que eu me quero furtar, n'este meu humilde e despreten-cioso trabalho, á acerba critica, orientando-o no sentido da aplicação clinica e desviando-o o mais possível dessa Babylonia de hypotheses que procuram 

explicar um facto biológico, a immunidade. 

Observações 

A. 

0. Edade, 33 annos. Estado, casado. Natural, Sin-fães. Profissão, jornaleiro. 

Entrou para a enfermaria n.° 4 com o n.° 71 cama 7, no dia 1 de Maio de 1918.— Observação a 3 de Maio. 

ESTADO ACTUAL. — Palidez. Decúbito lateral esquerdo. Lingua levemente saburrosa. Apetite. Dyspnea. 

APPARELHO RESPIRATÓRIO. — Tosse sêcca, muito rara, indolor. Movimentos respiratórios = 24. 

INSPECÇÃO DO TÓRAX. — Abaulamento do hemitorax esquerdo. Movimentos respiratórios reduzidos d'esté lado. Retracção inspiratória dos espaços intercostaes apenas visíveis 

á direita. 

PERCUSSÃO E AUSCULTAÇÃO. 

Á frente e á esquerda: 

No vértice. — Macissez, expiração soprada, broncho-fonia. signal de Baceli, signal de Pitres. 

28 

Na base. — Respiração nula. vibrações vocaes nulas, sonoridade nula, signal de Pitres. Macissez no espaço de Traube. 

A frente e á direita: 

No vértice. — Respiração augmentada, vibrações vocaes augmentadas. 

Atraz e á esquerda: 

No vértice. — Macissez, expiração soprada, signal de Baceli, bronchofonia, vibrações vocaes nulas. 

Na base. — Macissez, respiração nula, vibrações vocaes 

augmentadas. 

APPARELHO CIRCULATÓRIO. — Ponta do coração á direita do externo, junto do raamillo direito. Pulso pequeno, hypo-tenso; 84 pulsações. 

ANTECEDENTES HEREDITÁRIOS. — Pae morto ha 25 annos. Mãe viva cora 70 annos. Duas irmãs vivas saudáveis. Um irmão fallecido em criança. 

ANTECEDENTES PESSOAES. — Varicela em criança. Fu-runculose aos dezesete annos, que tem continuado. Tem duas filhas vivas. A mulher teve um aborto. 

EVOLUÇÃO DA DOENÇA. — A 3 do mez de Abril, andando no seu serviço de jornaleiro, sentiu os primeiros symptomas: 

Pontada do lado esquerdo do tórax, obrigando-o a recolher 

á cama. Arripios. Febre elevada. Delírio durante toda a noite e dia seguinte. Cephalalgia intensa. 

Ao fim de alguns dias: Tosse sêcca; dyspnea, que se foi accentuando; anorexia. 

29 

DIAGNOSTICO. — Pleurisia esquerda. 

E-lhe feita uma punção exploradora que deu um liquido citrino, transparente e límpido, com reacção de Rivalta positiva. 

Enviada ao laboratório Nobre a amostra com o n.° 6.315, deu como resultado analytico: 

Cytologia.—Franca lymphocy tose, raros mononucleares, células endoteliaes, glóbulos rubros. 

Bacilo de Koch. —Negativo ao exame directo e homo-genisação. 

Inoculação. — Positiva. 

O doente entrou a fazer uma febricula oscilando entre 36»,5 e 37°.5. No dia i fez-se-lhe uma thora-centese extrahindo-se 2.500 c. c. de liquido, pratican-do-se conjuntamente uma injecção subcutânea de 10 c. c. d'esté liquido. A diurese começou a reduzir-se progressivamente; 

de 1.300 c. c. baixou a 350 c. c. até ao dia 12. 

No dia 13 segunda injecção de 10 c. c. de liquido pleuritico. 

A diurese que n'este dia tinha sido de 1.100 c. c. voltou 

a reduzir-se nos dias seguintes; o numero de pulsações augmentou; a temperatura raras vezes attingiu 37°. 

No dia 22. terceira injecção de 10 c. c. de liquido pleuritico. 

A quantidade de urinas manteve-se abaixo de 1 litro, a temperatura começou a oscilar entre 36°,5 e 37°,5. O peso do doente durante este mez de Maio baixou de 55,5 quilos a 55 quilos. 

No dia 2 de Junho — cuti-reacção positiva. No dia 13, thoracentese extrahindo-se 1.300 c. c. A quantidade de uri- 

30 

nas começou a augmentar attingindo no dia 22, 2.000 c. c. (O doente fazia uso n'esta altura da teobroraina). 

Para os fins do mez a temperatura attingia 37°,5. O peso n'esta altura era de 54.5 kilos. 

Além da auto-sorotherapia o doente fez uso da estry-chnina, glicerophosphato de cal e teobromina. 

II 

S. 

P. A. Edade, 30 annos. Estado, solteira. Profissão, serviçal. Residência, S. Roque da Lameira. 

Entrou para a enfermaria n.° 7 no dia 21 de Agosto de 1917 com o numero 11, cama 11. 

Observação a 25 de Agosto de 1917. 

ESTADO ACTUAL. — Cefalalgia. Suores muito mais abundantes 

durante o somno. Anorexia. Lingua saburrosa e mau gosto na bôcca. Dores abdoininaes estendendo-se a todo o abdomen. Dôr á pressão. Abdomen abaulado = 8lcm-. Tyinpanistno. Ascite. Diurese reduzida. Pulso pequeno, hypotenso e frequente = 100 pulsações. Temperatura 39°,5. Ausência de menstruação. 

ANTECEDENTES HEREDITÁRIOS. — Mãe fallecida aos 17 em consequência da complicação d'um parto. Pae, 48 annos e saudável. 4 irmãos saudáveis. 

SI 

ANTECEDENTES PESSOAES. — Sarampo quando criança. 

EVOLUÇÃO DA DOENÇA. — Doente ha um mez, apresentando 

anorexia, dores abJominaes, cansaço e diarrea alternando 

com obstipação, abdomen volumoso. 

A punção exploradora revelou a existência de um liquido citrino com a reacção de Rivalta positiva. 

Poucos dias após a entrada na enfermaria a doente começou a apresentar a seguinte symptomatologia do lado do apparelho respiratório: Dòr á pressão nos espaços inter-costaes do lado direito e á frente, respiração soprada e atritos pleuraes. Atraz e também á direita vibrações vocaes, sonoridade e respiração diminuídas. 

DIAGNOSTICO. -—Pleurisia e péritonite tuberculosa. 

No dia 1 de Setembro de 1917 fez-se uma paracentèse extrahindo-se 3 litros de liquido citrino e fez-se uma injecção subcutânea de 10 c. c do mesmo liquido. No dia 10 segunda paracentèse e injecção de 10 c. c. de liquido ascitico. No dia 22 injecção de 10 c. c. de liquido ascitico. No dia 1 de Outubro injecção de 10 c. c. de liquido ascitico. No dia 10 de Outubro injecção de 10 c. c. de liquido ascitico. 

A curva térmica pouco se modificou e a diurese man-teve-se reduzida até que nos meados do mez de Dezembro a temperatura começou a baixar, normalisando-se como também a diurese começou a augmentai' attingindo 1.300 c. c. Nos princípios de Janeiro de 1918 a doente sem febre e com o seu estado geral melhorado, sahiu do Hospital. 

Além da auto-sorotherapia a doente fez durante o mez de Agosto a applicação de gelo. Nos mezes seguintes fez 

32 

uso da estrychnina, injecções de cacodylato de soda, glicero-phosphato de cal. cryogenina e óleo de ligado de bacalhau. 

111 

R. J- L. Edade, 19 annos. Estado, solteira. Profissão, serviçal. Residência. Gaia. 

Entrou para a enfermaria numero 7 no dia 28 de Março de 1918 com o numero 68. cama 3. 

ESTADO ACTUAL. — Emmagrecimento. Apetite. Cefalal-gias írontaes, por vezes. Fadiga com qualquer movimento. Ausência de menstruação. Temperatura vespéral 38°. Lingua ligeiramente saburrosa. Degeta todos os dias. mas por vezes diarrea. Abdomen abaulado. Perímetro abdominal = 95CI"-. Ascite. Rede venosa abdominal. Diurese reduzida— 

300 c c. Ausência de albumina. Tosse com ligeira expectoração. Vómitos com o esforço da tosse. Movimentos respiratórios == 40. Pulso, pequeno, hypotenso e frequente = 120 p. Ganglios cervicaes. 

PERCUSSÃO E AUSCULTAÇÃO. A. frente e á esquerda: Respiração rude. A frente e á direita: 

Respiração rude e expiração soprada no vértice. Atritos pleuraes discretos. 

33 

Atraz e á direita : 

Macissez na base e atritos pleuraes. respiração rude. Atraz e á esquerda: 

Macissez na base. Atritos pleuraes. Respiração dimi-nuida. 

ANTECEDENTES HEREDITÁRIOS. — Mãe failecida em consequência 

de icterícia. Pae com 40 annos. saudável, õ irmãos dos quaes um fallecido em criança com variola, e os outros saudáveis. 

ANTECEDENTES PESSOAES. — Sarampo quando criança. 

EVOLUÇÃO DA DOENÇA. — Doente ha 3 annos com : perda de forças, anorexia, dyspnea com a marcha, tosse sêcca. vómitos de manhã com esforço da tosse. Melhorou depois um pouco pela intervenção da medicação que acalmou um pouco estes symptomas. Ha um anno, peorou. A anorexia tornou-se maior, a dyspnea com o esforço passou a tel-a no repouso. Emmagrecimento, tosse sêcca e vómitos de manhã. Ha 6 mezes agravamento maior de todos estes symptomas e apparecimento de ascite com diurese reduzida. 

DIAGNOSTICO.— PÉRITONITE E PLEURISIA TUBERCULOSA.— A punção exploradora revelou a existência de liquido citrino na cavidade pleural esquerda com reacção de Rivalta positiva; á direita revelou a existência de liquido sero-sanguinolento, enquistado. No dia 1 de Abril foi-lhe feita uma paracentèse extrahindo-se 3.450 grammas de liquido e conjuntamente uma injecção subcutânea de 10 c. c. d'esté 

34 

liquide 

No dia 16 outra paracentèse extrahindo-se 6.500 gramas e nova injecção de 10 c. c. de liquido ascitico. Egual injecção foi praticada nos dias 11. 18 e 25 dé Maio e 8 de Junho. No dia 15 de Junho uma paracentèse extrahindo- 

se 3 litros de liquido ascitico e injecção de 10 c. c. d'esté liquido. Além d'esté tratamento fez uso da teobro-mina. lactose, glycerophosphate de cai. adrenalina e compressas 

d'alcool. No dia "25 do mez de Junho de 1918 adoente sahiu no mesmo estado. Embora tivesse augmentado de peso durante a estada no Hospital, o certo é que a temperatura manteve sempre a mesma irregularidade cora remissões e exacerbações grandes como também uma diurese bastante reduzida. 

IV 

M. G. 

S. Edade, 18 auuos. Estado, solteira. Profissão, serviçal. Residência, Porto. 

Entrou para a enfermaria n.° 7 no dia 29 de Março de 1918 com o n.° 69—cama 2. 

Observação a 1 de Maio de 1918. 

ESTADO ACTUAL.—Palidez. Cephalalgia frontal. Suores nocturnos. Temperatura 38°,9. Perda de forças. Anorexia. Diarrea já depois de internada, mas actualmente ausente. Empastamento da região epigastrica, com defeza e dôr. 

35 

Dores thoracicas 

á direita, face anterior. Tosse sêcca. Ás vezes ligeira expectoração. Dyspnea augmentando com os movimentos. Movimentos respiratórios = 40. Diurese redu-zida=250 grammas. Pulso pequeno, hypotenso. frequente = 128 p. Desvio da ponta do coração para a linha media. Ausência de menstruação ha 4 mezes. 

. PERCUSSÃO E AUSCULTAÇÃO. — Macissez para a base do hemi tórax esquerdo. Respiração nula d'esté lado e na base. Respiração soprada no vértice esquerdo. Respiração soprada no vértice direito. 

ANTECEDENTES HEREDITÁRIOS.—Pae fallecido, ignoran-do-se a causa. Mãe fallecida em consequência de parto. 

ANTECEDENTES PESSOAES. — Sarampo, quando criança. 

EVOLUÇÃO DA DOENÇA. —Doente ha trez mezes: anorexia, 

perda de forças, suores nocturnos, dyspnea, tosse sêcca, vómitos com esforço da tosse. Peorou ha 32 dias, com os esforços que fazia e aos quaes era obrigada pelo seu mister, entre os quaes o de tirar agua de um poço, começou a apresentar emmagrecimento mais acentuado e crescendo dia a dia, anorexia, mais suores diurnos e nocturnos, 

dyspnea augmentada e mais tosse. 

DIAGNOSTICO —PLEURISIA EXSUDATIVA. — Punção exploradora 

positiva, dando a reacção de Rivalta positiva. Enviada ao Laboratório Nobre a amostra com o n.° 6.343, a analyse qualitativa do liquido pleuritico deu o resultado 

36 

seguinte: Predomínio de lymphocytos e alguns glóbulos rubros. 

A pesquiza do bacilo de Koch foi negativa. No dia 3 apresentou dores abdominaes em forma de picadas. A 16 d'esté mesmo mez appareceram atritos pleuraes do lado direito á frente e atraz o que levou a fazer o diagnostico de pleurisia sêcca d'esté lado. No dia 24 de Abril a cuti-reacção deu positiva. A doente que fazia temperaturas entre 37° e 38°,5, nos princípios de Maio passaram para 36°,5 e 37°.5. No dia 8 d'esté mez fez-se a extracção de 10 c. c. de liquido da cavidade pleural e injecção subcutânea d'esté liquido. A temperatura nada modificou e a diurese au-gmentou ligeiramente. No dia 16 nova injecção de 10 c c. de liquido pleuritico. As oscillações de temperatura torna-ram-se menores; a diurese reduziu-se. No dia 23 outra injecção de 10 c. c. de liquido pleuritico. A doente não mais teve febre e a diurese augmentou. No dia 30, injecção de 10 c. c. de liquido pleuritico. A doente manteve o estado anterior, diminuindo apenas o numero de pulsações e o numero de. movimentos respiratórios. A ultima injecção de 10 c. c. de liquido pleuritico foi praticada no dia 6 de Junho porque no dia 13 d'esté mesmo mez a punção pleural foi negativa. O estado geral da doente melhorou; o pulso, a respiração e a diurese normalisarara-se, augmentando também de peso. No dia 20 de Junho sahiu da enfermaria, melhorada. Além da auto-sorotherapia a doente fez uso da teobromina, glycerophosphato de cal, estrychnina. 

3? 

S. L. Edade, 

30 annos. Estado, solteira. Profissão, serviçal. Residência. Mattozinhos. 

Entrou no dia 20 de Agosto de 1917 para a enfermaria 

numero 10 com o numero 371. 

HISTORIA DA DOENÇA. — Ha 3 semanas approximada-mente que sentiu pontada na base do hemitorax esquerdo, exacerbando-se com a tosse ou movimentos respiratórios mais intensos e movimentos dos braços. Dyspnea e ligeira tosse. 

DIAGNÓSTICO. — Pleurisia sero-fibrinosa do lado esquerdo. 

O exame bacteriológico do liquido pleuritico não revelou 

bacilos de Koch. O exame cytologico revelou numerosos 

lymphocytos, alguns grandes raononucleares, poucos po-lynucleares e alguns glóbulos rubros. 

ANTECEDENTES HEREDITÁRIOS. — Pae, ignora, porque não vive com elle; mãe, sofre do reumatismo. Cinco irmãos vivos e saudáveis. 

ANTECEDENTES PESSOAES. — Variola aos 20 annos. Tenia aos 28 annos. Foi sempre fraca, qualquer exercício mais violento a fatigava. Syphilis. 

38 

No dia 24 de Agosto a altura do liquido correspondia á quarta costella. Faz-se-lhe uma injecção subcutânea de 1 c. c. de liquido pleuritico. 

No dia 26 a altura do liquido mantinha-se a mesma; nova injecção de 1 c. c. foi applicada. 

No dia 28 a altura do liquido correspondia á 6.a costella. 

voltando a applicar-se outra injecção de 1 c. c. de liquido pleuritico. 

No .dia 30 a altura do líquido correspondia á 9.a costella 

e uma injecção de 1 c. c. foi-lhe novamente applicada. 

No dia 31 o liquido estava reabsorvido. A doente entrou com a temperatura de 38*. 1. baixando no dia seguinte 

para 37°,7. 

No dia 3 de Setembro á auscultação notaram-se atritos 

pleuraes em todo o hemitorax esquerdo. A temperatura continuou a baixar fazendo apenas durante uns dias uma febricula que rapidamente desappareceu. 

Sem outra medicação a doente consideravelmente melhorada, 

deixou a enfermaria pelos meados do mez de Setembro. 

VI 

J. A. Edade, 21 annos. Estado, solteiro. Profissão, serviçal. Residência, Porto. 

Entrou para a enfermaria numero 10 com o numero 

39 

1658, no dia 22 de Março de 1917, com o diagnostico de: Pleurisia do lado esquerdo. 

HISTORIA DA DOENÇA. — Em meados de Fevereiro sentiu 

dôr intensa no hemitorax esquerdo, porção infra-lateral. A dôr tornou-se depois mais intensa e irradiou para todo o hemitorax. Doze dias depois apresentava: Cephalalgia; Arripios; Tosse; Dyspnea; Anorexia; Sede; Urinas raras e carregadas. Não podia deitar-se sobre o lado direito. 

ANTECEDENTES HEEEDITAKIOS. — Pae morreu aos 50 annos com febre typhoide, tendo sido sempre saudável. Mãe também já fallecida com 50 annos approximadamente foi sempre fraca. De 15 irmãos, 11 são vivos e saudáveis, ignorando a causa da morte dos outros. 

ANTECEDENTES PESSOAES.— Teve sarampo; aos 14 annos teve a febre typhoide contagiada pelo pae. Observação em 23 de Março. 

INSPECÇÃO. — Movimentos respiratórios 26. Typo respiratório 

costal-superior. Immobilidade do cavado epigastrico. Menor mobilidade do hemitorax esquerdo. Ligeira mobilidade 

inspiratória. Forma obliqua ovalar do hemitorax esquerdo. 

MENSUEAÇÃO. — Hemitorax esquerdo — 45,5 centímetros. 

Hemitorax direito — 40,3 centímetros. Desvio do esterno para a esquerda 1,2 centímetros. 

PALPAÇÃO. — Ponta do coração bate ao nível da linha 

40 

mamillar direita. Abolição de vibrações vocaes no hemito-rax esquerdo. Signal dos espinaes pouco nítido, onda torácica 

positiva, principalmente fluctuação intercostal. 

PERCUSSÃO. — Macissez em todo o hemitorax esquerdo. Macissez no espaço de Traube. 

AUSCULTAÇÃO. — Abolição do murmúrio vesicular. Sopro 

principalmente intenso no espaço intercapular. 

DIAGNOSTICO.—Pleurisia sero-fibrinosa de natureza tuberculosa. Cuti-reacção ligeiramente positiva. Expectoração— 

bacilo de Koch negativa. Expectoração. — Albumina. 

Reacção positiva. No dia 24 fez-se-lhe uma thoracen-tese extrahindo-se um litro de liquido pleuritico. Enviada ao laboratório a amostra com o numero 7.223. a analyse qualitativa 

revelou existência de muito poucos elementos celulares 

e o exame cytologico revelou bastantes lymphocytos, alguns grandes mononucleares e alguns polynucleares. No dia 27 uma segunda thoracentese extrahindo-se egualmente um litro de liquido e fazendo-se simultaneamente uma injecção subcutânea de 7 c. c. de liquido pleuritico. No dia 2 de Abril injecção subcutânea de 10 c. c. de liquido pleuritico. No dia 10 de Abril injecção de 20 c. c. de liquido 

pleuritico. 

No dia 16 de Abril constatou-se que o liquido estava reabsorvido, sendo negativa uma punção exploradora feita nessa occasião, apresentando a doente a seguinte sympto-matologia : 

Tosse; exagero de vibrações vocaes na fossa infra- 

4J 

clavicular 

esquerda e exagero d'estas vibrações no resto dp pulmão. Macissez em todo o hemitorax. principalmente na íossa infia-clavicular e diminuição do murmúrio vesicular no resto do pulmão. Sarridos crepitantes e atritos pleuraes disseminados. A 19 d'esté mez. apresentou vómitos, gas-tralgia e anorexia, que no dia 26 desappareceram. N'esta mesma data ligeira ampliação da base esquerda. Vibrações diminuidas á esquerda, no vértice; na base as vibrações normaes. Sonoridade diminuída á esquerda em toda a altura. Murmúrio vesicular diminuído na base esquerda ; quasi normal no vértice. Em 15 de Maio: atritos pleuraes. sarridos húmidos de medias bolhas. A 16 de Julho atritos pleuraes desapparecidos assim como os sarridos. O pulmão apresenta-se permeável, a sonoridade normal e^as vibrações 

vocaes também normaes. 

Clinicamente esta doente está curada. Por indicação do Director da enfermaria a doente vae para ares de campo. 

A 9 de Setembro após a estada no campo, é novamente 

observada. 

Augmentou 6 quilos em peso. O estado pulmonar, bom. 

Vejamos agora se sim ou não esta doente beniticiou com a auto-sorotherapia. 

A doente entrou a fazer temperaturas superiores a 39°,5. No dia 2 de Abril, quando a temperatura estava a 38°. 1. foi-lhe feita uma injecção de 10 c. c. de liquido pleu-ritico. N'esse dia a temperatura baixou até ás 3 da tarde, vindo para 37°,8, começando em seguida a subir até ás 6 horas da tarde chegando a 39°,8 para baixar em seguida 

42 

uo dia seguinte a 36°,5 até ao meio dia. attingindo 37°,5 ás 3 da tarde. 

Nos dias seguintes a temperatura não ultrapaçou 39°, podendo dizer-se que oscilava entre 37° e 38°,5 em media. 

No dia 10 quando a temperatura estava a 38° ás 9 horas da manhã, foi praticada a injecção de 20 c. c. de liquido pleuritico. A temperatura subiu n'esse dia á tarde a 39°,5. Até ao dia 21, manteve-se elevada, todos os dias attingia em média 38°,5. O que era para notar é que as remissões matinaes eram de dia para dia maiores, attingindo os 37° no dia 21. 

Assim passou o mez de Abril com temperaturas inferiores 

a 38°,8, e superiores a 37. 

Do ilia 

8 de Maio em deante a temperatura o máximo a 38°. e o minimo a 36°,7. 

Do dia 23 em deante passou a fazer temperaturas raras vezes attingindo 37°,5, de ordinário 37V2 e com remissões até 36°,2. Gada vez estas oscilações se foram tornando mais pequenas até que do dia 20 de Junho em deante, a temperatura se manteve sempre abaixo de 37°. Da analyse á observação apresentada, vê-se que duas thoracenteses 

foram feitas e apesar d'isso o liquido se reformou. Com a primeira e segunda injecção de 10 c. c. o liquido manteve-se estacionário, mas com a terceira injecção de 20 c. c. o liquido começou a reabsorver-se. Desde que esta injecção foi praticada a diurese começou a augmentai'. N'esta doente havia lesões pleuro-pulmonares que curaram e cuja cura não pode ser attribuida senão á absorpção, ou melhor dizendo, á entrada na torrente sanguínea do exsu-dado pleuritico. Qual o biomecanismo da cura? É a maio- 

43 

ria das opiniões dos biologistas que a introducção dos exsu-dados na corrente circulatória dá logar ahi á formação de substancias imunisantes, tal como acontece com as auto-vacinas. E n'esta doente bem parece provada esta hypothèse pois é com certa progressão lenta e desapodada d'outra medicação que vimos effectuai'-se a cura feita nas melhores condições. 

Eu tive occasião de observar alguns doentas hospitali-sados, que tendo tido a applicação da auto-sorotherapia, apresentavam certas particularidades na forma como reagiram 

a esse tratamento, que nos obrigaram a abandonal-o. Outros mostraram uma completa indifferença a este tratamento, 

como aconteceu á doente R. J. L. da enfermaria 7, evoluindo a doença sem a menor paragem dos seus symptom 

as. 

Uma outra doente com ascite tuberculosa, com a segunda injecção de liquido peritoneal de 10 c. c. começou a a fazer temperaturas elevadas e com grandes oscilações, o que nos levou a não praticar outra injecção. 

Pergunto agora se em virtude da elevação de temperatura 

que precedeu a 2.a injecção, ao contrario do que succedeu com a l.a, devia constituir n'este caso uma contra, indicação ao uso da auto-sorotherapia? Se esta elevação de temperatura não seria úma indicação para fixarmos a quantidade de liquido a injectar em próximas applicações? Não será o organismo susceptível de modificar a quantidade de tuberculinas sob a influencia d'estas injecções e d'ahi a necessidade de alterar a quantidade a injectar? 

44 

Como se deprehende das observações apresentadas, 

os resultados obtidos são muito diversos e muito différente é o modo seguido na applicação para cada doente, se bem que o critério, a traços largos, se}a o mesmo para todos. Isto significa apenas o quanto este trabalho de deficiente representa, 

pela falta de uma longa observação, que podesse marcar um certo numero de princípios bem assentes, nos quaes residisse todo o êxito therapeutico. 

Mas, da comparação de todas estas observações, 

alguns factos importantes resaltam immediata-mente, dos quaes nos permitimos tirar algumas conclusões. 

Referir-me-hei á technica, ás indicações e con-tra-indicações. 

Technica 

Uma seringa da capacidade de 20 c. c. e uma agulha de platina de 6 c. de comprimento, em média, reúnem todo o material. Uma vez diagnosticado o derrame, a punção exploradora torna-se indispen- 

45 

sável para a determinação da sua natureza, de maneira 

que, n'uma só operação podemos satisfazer trez fins, procedendo da seguinte maneira: com a agulha montada na seringa — convenientemente esterilisada para não fazermos associações microbianas, 

ou então tornar infectado o que até ahi não estava — faz-se a punção de forma a que a ponta da agulha mergulhe no seio do exsudado, o que facilmente se reconhece, quer pela sensação de resistência que se nota ao atravessar os diferentes 

tecidos, quer pela facilidade na maior parte dos casos, de se fazer dar um movimento de cir-cundução á seringa. Faz-se a aspiração lentamente, e desde que o calibre da agulha seja sufficiente para não se deixar obstruir, o que vulgarissimas vezes acontece desde que haja membranas formadas ou numerosíssimos elementos celulares aglutinados, nós immediatamente reconhecemos se o exsudado é seroso, purulento ou hemorrhagico ou uma e outra 

coisa. Segundo Gilbert, sempre que o derrame seja seroso ou sero-hemorrhagico, inflammatorio ou não, nós devemos adentro das indicações clinicas do methodo fazer a auto-sorotherapia, para o que, retirando lentamente a agulha de forma a ficar a ponta no tecido cellular subcutâneo, nós fazendo uma prega na pelle n'ella depois introduzimos a 

46 

agulha, injectando a quantidade que fixarmos, segundo 

os dados clínicos determinados previamente. Retira-se em seguida bruscamente a agulha, desfazendo 

o trajecto por meio de compressão entre o pollegar e o indicador da mão esquerda, primeiro, e depois a obstrução com um pouco de algodão em-bido em colodio. Satisfeitos assim, n'uma só operação, 

estes dois fins, o restante da colheita serve para n'elle se fazer uma série de exames chymicos, physicos e biológicos, sem que o doente para isso tenha de ser muito massado e exposto ás graves complicações d'uma punção, que em determinadas 

circumstancias podem sobrevir. 

Repetida na mesma forma, as vezes que forem necessárias, tem sempre o mesmo valor pelos ensinamentos que nos dá na sua seriação, isto é como quem diz sobre a quantidade e a qualidade. E vem então a propósito dizer, que o logar de eleição para a punção não deve ser indifférente, devendo pelo contrario obedecer a umas poucas de indicações a que submettemos o nosso critério. D'esta forma, do logar da punção nós podemos concluir e fazer depender conclusões. 

Í7 

Indicações e contra-indicações 

Nesta parte eu terei em especial linha de conta, attentas as observações apresentadas, o que se refere á pleurisia sero-fibrinosa e á ascite tuberculosa, o que vem a recahir um pouco na therapeutica d'estas formas de tuberculose, mas no emtanto eu não deixarei 

de concordar que ela é applicavel a todos os casos de exsudados em geral. 

Se o valor therapeutico dos exsudados tuberculosos 

reside na quantidade de auto-tuberculinas que contem, é fácil estabelecer as indicações e contra- 

indicações da sua applicação, procedendo tal-qualmente como com as tuberculinas. 

Após uma injecção de sorosidade devem atentamente 

observar-se as reacções térmica, local e geral. É sobretudo a temperatura que mais nos deve guiar. 

Se a curva térmica se altera depois duma injecção, 

devemos abstermos de praticar uma segunda. 

Muitas das vezes podem sobrevir pheno-rnenos de anaphylaxia que constituem até certo ponto uma contra-indicação. É, no emtanto mais fácil manejar as tuberculinas do que fazer a auto-sorotherapia. Esta falha o mais das vezes, porque 

48 

procedemos muito empiricamente. Para que os resultados fossem seguros era preciso que fosse determinada a quantidade de auto-tuberculinas existente 

em cada centímetro cubico de sorosidade e por outro lado o coefficiente opsonico bem determinado 

no sangue do doente. 

D'esta 

maneira poder-se-hia com segurança esperar 

o.s. bons resultados. 

flpplicações clinicas e seu valor therapeutico 

Ainda que pouco generalisadaa auto-sorothera-pia a meu ver, a sua applicação deve estender-se a todos os casos, qualquer que seja a natureza do derrame. 

É sobretudo na tuberculose que ella tem sido mais applicada. No emtanto seja qual fôr a causa do derrame é sempre um tratamento a tentar, desde que as condições do doente o permitam. Tem-se praticado este tratamento em casos em que o derrame 

não é inflammatório, como por exemplo no hydrocele e na ascite por cirrose hepática. O que é curioso, é que não se dando nestes casos a cura, nota-se algumas vezes uma melhora apreciável, por. vezes até a reabsorpção completa, mas tempo- 

49 

rariamente. Para os derrames inflammatories, além d'esta propriedade cujo mechanismo physiológico é obscuro, o valor therapeutico d'esté methodo consiste 

em aproveitar os anticorpos existentes nos ex-sudados. É portanto autotherapia que se pretende fazer. Sendo assim, porque razão, na tuberculose não procuramos nós também as auto-tuberculinas nos escarros, no pús dos abcessos frios e nos derrames 

purulentos? Não existem ellas ahi? Bem sei que a par d'essas substancias defensivas existem outras altamente nocivas, mas os artifícios do laboratório, para alguma coisa hão-de servir. 

Proposições 

Anatomia descriptiva e topographica. — A topogra-phia dos órgãos impares justifica a desigualdade dos órgãos pares e symetricos. 

Physiologia. — A funcção mais complexa é a da phagocytose. 

Pathologia geral. —A immunidade deve definir-se: a resultante do conjuncto de factores physicos, chymicos e biológicos que um organismo emprega em sua defeza. 

Hygiene.— A hygiene moral é a base da hygiene phy-sica. 

Clinica medica. — As perturbações cardíacas na gripe pneumónica são na maior parte dos casos devidas á intoxicação 

do pneumogastrico. 

Clinica cirúrgica. — O methodo de Bier realiza em parte a autotherapia. 

52 

Operações.—Na resecção do joelho, a conservação da rotula deve considerar-se objecto de luxo. 

Partos. — Nas mulheres gravidas e cora a influenza pneumónica, o aborto é a regra. 

Medicina legal. — Nos casos de falência moral dos pães ou tutores dos menores que necessitem de consentimento 

para sofrerem qualquer intervenção cirúrgica, que se imponha, devia esta auctorisação depender d'uni conselho medico-legal. 

Visto Pode imprímir-se 

cTfiiixao 3'almeida, Sltaxvmiano XevnoS, 

Presidente. Director. 

Olivares Rocha
44 anos
- RJ

[ocultar participação]  [voltar]

Comentários


Quero comentar Total de 1 comentários  -  1 nesta página
[primeira < anterior   Página de 1     próxima >  [última]

Sábado, 12 de junho de 2021 - 11:44:41
 

Nenhum comentário ainda.

 

Webmaster



envie este texto a seus amigos

Busca Saúde
Pesquisa personalizada








Atenção: NÃO USE informações aqui divulgadas para substituir uma consulta médica. Seja prudente, consulte um médico, quando entender necessário, para o correto diagnóstico e eventual tratamento".

[ir para a lista que contém esta participação]
 
  AHT HEMOTERAPIA: Informações & Debate, Depoimentos, Publicações e Vídeos (2007 - 2021)
Fique livre para divulguar informações aqui disponibilizadas.
Agradecemos a citação da fonte.
webmaster@hemoterapia.org